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O fim do Adroaldo

Luis Fernando Verissimo

O Adroaldo é acordado pela sua mulher, Helena, mais cedo do que costume.

- Hoje tem reunião do elenco. Esqueceu?

Adroaldo, zonzo de sono:

- Reunião do elenco?

- É. Dez horas.

Ainda zonzo, Adroaldo chega com a mulher ao local da reunião. Estranha. Não sabia da existência daquele local tão perto da sua casa. Da casa em que mora há 40 anos. Sua família está toda lá. Os filhos. Os netos. A filha adolescente Lilica e o namorado Beto. Edineide, a empregada, e a família da Edineide. Algumas pessoas que ele não conhece. Outras que frequentam sua casa. E, meu Deus, a Marialva! Sua amante, Marialva, e o filho adolescente dos dois, o Maurinho, de cuja existência a Helena nem desconfia! Mas a Helena e a Marialva conversam animadamente. Desde quando se conhecem? O que está acontecendo? Com o choque de ver a mulher e a amante juntas, Adroaldo termina de acordar.

Helena e Marialva e os outros param de falar quando entra no local um homem que Adroaldo nunca viu antes. Um homem de cara amarrada. Não dá nem bom dia. Tem um papel na mão, que abana sobre a cabeça para todos verem.

- Os últimos números – diz o homem. – Caímos mais dois pontos.

Há um murmúrio de insatisfação na sala. O homem mostra outros papéis.

- Fizemos uma pesquisa para saber o que o público está pensando. Do que gosta e do que não gosta. O resultado está aqui.

Adroaldo cochicha no ouvido de Helena:

- O que é isso? Quem é esse cara?

Helena diz:

- Pára, Veloso.

- “Veloso”? Adroaldo não entende. Por que sua mulher o chamou de “Veloso”?

xx -- xx -- xx

- Vai haver mudanças, gente – anuncia o homem. – Radicais. Para começar, o público não está gostando muito das cenas de sexo da Lilica com o Beto.

Adroaldo quase dá um pulo. Sexo? A Lilica com o Beto? Quando? Onde?

O homem continua:

- Vamos dar uma reforçada no núcleo pobre. O público simpatizou com a Edineide. Zé, arranja uma complicação da Edineide com a Helena. Uma acusação falsa, qualquer coisa assim, pra Edineide ser demitida e depois se vingar.

- Certo – diz o Zé, um dos presentes que Adroaldo nunca viu antes. – Ela pode se juntar com a Marialva para tramar contra a Helena. As duas podem descobrir que a Helena tem uma ligação homossexual com a Gildinha.

Adroaldo não se contém. A Lilica fazendo sexo com o Beto debaixo do seu nariz. A empregada de tantos anos sendo despedida sem que ele seja consultado. E aquela sugestão que sua mulher é lésbica! Adroaldo explode:

- Espera aí um pouquinho!

Mas o homem o detém com um gesto.

- Peralá, Veloso. Eu ainda não terminei. Depois vocês podem se manifestar. Zé, não acho uma boa a Helena e a Gildinha. Já temos o Maurinho gay, o público pode reagir a muito homossexualismo.

Adroaldo atônito. Por que “Veloso”? Que história é essa? E o Maurinho, gay?!

O homem agora está apontando para Adroaldo.

- Veloso, o seu personagem Adroaldo não está funcionando. O público não está gostando. Acho que vamos ter que eliminá-lo.

- O que?

- E tem mais. Você anda atrapalhando as gravações. Com esses seus lapsos de memória, essa sua esquisitice... Zé, bola uma boa morte para o Adroaldo.

- Ataque cardíaco, nos braços da Marialva – diz Zé, em meio a gargalhadas.

Adroaldo não ri. Adroaldo está de olhos arregalados. O que está acontecendo? Que história é essa? Que história é essa?!


Domingo, 8 de abril de 2007.



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